Conflitos de ordem espiritual
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Muitos casais vivem vidas de grande insatisfação devido a uma conflitualidade espiritual manifesta. Os conflitos espirituais são aqueles que mais sangue fizeram correr ao longo da história. Hoje, eles assumem um contorno diferente na alegada sociedade pós-moderna de respeito por todos os valores e posicionamentos espirituais. Somente que, esta não é toda a verdade. Por isso, uma quarta categoria do modelo salutogénico são os recursos espirituais que podem auxiliar na resolução de conflitos. Negar estes valores espirituais, não resolver as grandes questões da vida, deixar de estruturar a existência em função de um código de valores, trará o conflito e infelicidade.
Compreender a saúde familiar nesta dinâmica não só garantirá uma vida de maior e melhor qualidade como ainda uma saúde menos afectada pelo pathos. É por isso essencial, que o casal defina claramente antes de casar, qual é a sua comunalidade no âmbito espiritual.
Inter-agindo:
A Diana tinha com o Josué um belo bebé, o Manuel. Todos os Sábados de manhã ele era preparado para ir à Igreja. E era com entusiasmo que começou a perceber o que o aguardava nessas ocasiões. Um dia, o Manuel quis testar os pais e fez uma birra enorme dizendo que não queria ir à Igreja. Chorou, barafustou, não deixava vestir a roupa de Sábado, atirava com os sapatos... enfim, ele estava determinado a não ir à Igreja pelo seu pé e voluntariamente. O que fazer? Criar um conflito com o Manuel baseado na ida à Igreja?
Que soluções poderiam ser equacionadas neste caso real? Comentário final:
A Diana e o Josué tinham decidido que nunca iriam usar de violência (fosse ela física... entre si ou contra os seus filhos). Naquele momento de prova eles tinham o primeiro grande teste com o Manuel. Depois de trocarem algumas impressões e com a hora de começar a Igreja a aproximar-se, decidiram guardar a sua comunalidade e não abrir uma excepção naquele momento. Assim o Josué foi buscar a caixa dos brinquedos de Sábado e deu-a ao Manuel, que ficou delirante, e talvez pensando... ganhei a minha guerra: aqui quem manda sou eu!
A Diana e o Josué continuaram a preparar-se para irem à Igreja até que chegou o momento de pegar nas chaves do carro. Quando o Manuel ouviu o barulho das chaves, como acontece com todas as crianças, ficou excitado pois queria ir passear. Reparou no entanto que não estava preparado e nenhum dos pais fez o gesto de pegar nele. Começou a gesticular e a chorar. O pai explicou-lhe então que não iria sair com eles, pois eles iam à Igreja e o Manuel tinha dito que não queria. O Manuel entrou em crise, mas o seu choro não era agora do mesmo tipo do que tinha anteriormente: agora chorava de tristeza, é que ele tinha compreendido que embora os pais respeitassem a sua vontade de não querer ir à Igreja, ele não conseguia castigá-los obrigando-os a ficar em casa com ele. O facto dos pais lhe darem os brinquedos de que mais gostava e que só ao Sábado ele tinha – pois durante a semana era outra a caixa dos brinquedos - reforçava um aspecto fundamental da personalidade do Manuel: a sua autonomia! No entanto essa autonomia não deveria por em causa a autonomia dos seus pais, que tinham uma comunalidade: ambos queriam ir à Igreja.
Os pais saíram então de casa e deixaram-no a chorar. Mas o seu coração estava partido ao pensarem nas consequências da decisão que tinham tomado de respeitar o seu bebé. Ao fim de alguns minutos o Manuel calou-se e ficou mais calmo. Os pais que tinham ficado à porta, pois estavam preocupados com o facto de deixar o seu filho sozinho em casa, e sabendo que as crianças não têm uma noção do tempo – entraram em casa. Para o Manuel os pais tinham chegado da Igreja. Um sorriso e abraço muito forte foi atirado aos papás! O Manuel tinha percebido a lição e o valor comum da não violência tinha sido guardado intacto, naquela que poderá ter sido a primeira grande prova de teste da construção da personalidade do Manuel na sua dimensão espiritual. O Manuel tem hoje 21anos é um excelente aluno universitário e vai à Igreja por sua iniciativa. Na Igreja onde está agora deseja mudar a fraca assistência às reuniões de oração e está empenhado com o pastor da sua Igreja nessa mudança. Nestes últimos 20 anos ele nunca mais disse aos pais que não queria ir à Igreja.
Por: Luís Nunes


